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essa coisa de ser duas almas no mesmo tempo-espaço é mesmo impressionante. e nessa aventura bonita que é estar duas, parece que eu descobri a desimportância. porque diante da vida, do arrepio, do mistério, tudo me parece um pouco menor, um pouco menos, um pouco mais desimportante. não consigo lembrar exatamente como era antes, e ao mesmo tempo me sinto exatamente eu. todo dia um pouquinho mais eu. quem eu era, quem eu fui, quem eu sou, quem eu vou ser, quem eu ainda não descobri. minha filha ainda está aqui dentro de mim, mas já me mostra, me ensina e me transforma. às vezes eu fico pensando que a gente tem filho mais para aprender do que para ensinar. e que nessa dança que é ser duas, a minha mestra é ela. porque eu sinto a sua força, a sua potência, a sua luz. e todo dia ela me diz, mãe, lembra de não esquecer. dos seus sonhos. do que é essencial. agora eu to aqui. com você. serena chegou e me fez lembrar de tudo o que veio antes. e, principalmente, tudo o que me trouxe até aqui. eu posso ter essa presença de espírito que diz ao contrário, mas a verdade é que a minha vida foi também, muitas vezes, uma tempestade sentida de dentro. eu cheguei em são paulo com 17 anos, atenta e forte, com um coração ingênuo e todos os sonhos do mundo. e desde então nada nunca foi exatamente fácil, mas agora, com ela aqui comigo, parece que tudo ficou um pouco mais cristalino. hoje eu consigo perceber que a minha vulnerabilidade sempre foi a minha maior potência, e que essa é a minha história. com todos os sins, todos os nãos, todas os desesperos, decepções, amores, encontros e revoluções. e às vezes parece que tudo o que eu fiz, escolhi e vivi, foi sim para, de repente, estar aqui e agora. afinal, ela é o meu sonho mais profundo, mais verdadeiro, mais sereno. é incrível como a gente esquece o que importa. o que a gente ultrapassou. o que a gente conquistou. a gente vai se diminuindo sem perceber. tentanto ser pequena pra caber. na média, na máscara, no hype, no like. nesse processo de nascer borboleta, eu também descobri que eu tenho muito orgulho do meu caminho. porque eu já fiz, realizei e construí muita coisa nessa vida. sou autodidata, aprendi a fotografar em 35mm, passei cinco anos fotografando só com filme quando a #35mm ainda não era moda, nunca fui assistente de ninguém. em dez anos de carreira, eu remei contra a maré, desconstruí todos os protocolos, sofri bastante, mas segui o meu coração, fui autentica em todas as minhas escolhas e sei que eu inspirei e abri caminho para muitas mulheres se descobrirem fotógrafas. e, pra mim, só isso já é muito. sei e sinto que o poeme-se emocionou, acolheu e tocou a alma de muitos corações. partidos, felizes, aflitos, apaixonados, perdidos. e, pra mim, só isso já é muito. sei e sinto que eu trabalhei muito para mostrar para o mundo o poder e a força essencial do feminino. e, pra mim, só isso já é muito. eu sei que eu fiz tudo isso, mas sei também que eu me perdi de mim mesma muitas vezes nesse caminho. e tudo bem. faz parte. a gente se perde também para se encontrar, para descobrir o nosso valor, para lembrar quem a gente é, um pouquinho mais ali, na frente. serena chegou e eu lembrei de tantas coisas. eu lembrei da minha força. e mais do que tudo. eu lembrei que tudo o que eu já fiz nessa vida foi também para que ela não tenha que passar pelo o que eu passei. do mesmo jeito que minha mãe fez, e a minha avó, a minha bisavó, e todas as minhas ancestrais. lembrei da mariana jovenzinha que descobriu na fotografia a sua forma de ver, de ser, de se expressar, de sentir, e estar no mundo. lembrei que antes de ser uma retratista, uma ensaísta, eu sou uma artista. uma fotógrafa da natureza selvagem que vem de dentro de mim. que eu sinto e me comunico com as cores, com a água, com o vento, e o movimento. foi assim que a fotografia nasceu em mim, dez anos atrás. e foi assim que eu decidi, agora com minha filhota junto comigo, me jogar em mais uma viagem, atravessar minhas fronteiras interiores, realizar minhas paisagens oníricas mais preciosas e criar esse movimento de amor que a mariana caldas co., a minha galeria, a minha fine art store, desconstruindo os protocolos, mais uma vez, com coragem e originalidade.